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domingo, 6 de janeiro de 2019

Apocalypse

Para quem era um desejo de duas noites, falavas bastante.
A mim nunca me tinham dito que os desejos falavam e que diziam verdades assim.
Ou até mesmo que se repetiam e aconteciam fora dos limites que achámos impostos.

Talvez tenhas aparecido como desejo, mas agora sei que tinhas uma missão maior.

Uma missão para além do prazer, das noites mal dormidas, dos dias que passamos de cortinas fechadas na cama branca do hotel onde nos descobrimos até ficarmos sem fôlego.
Meu desejo falante, como me tiraste as medidas, como me deste asas, como me fizeste sentir especial, sensual, à vontade, sem correntes.

Por cada vez que imagino o teu peito interminável, a tua barriga delineada, o teu cheiro doce, os teus braços fortes, o colar de um continente que não era o teu, que eu mordi, que me tocou com aquele frio metálico... imagino também o que me disseste, o que me fizeste sentir. Como se existisse um outro destino, uma legitimação da minha forma de ser, ou por outro lado uma calma eterna depois da busca.

Foste medicamento rápido, gripe pesada que passou em 3 dias, tranquilidade depois da chuva

Dziękuję.




quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Crer- Sendo

Eu não sei como me tornei
- Viciada na curiosidade
- Na troca de cheiros
- No ter mais do que devia

Pergunto-me se foste tu que
- Me fizeste sentir que ficava aquém
- Que não era suficiente
- Que não chegava

(só podes ter sido tu, foste tu)

E assim me deixaste para sempre
- Marcada
- Caçadora de sensações
- Vivendo vidas paralelas
- Sem satisfação

Sempre ao espelho à espera de
- Uma outra relação
-Uma diferente família
- Uma nova experiência
- Outro eu


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Death with dignity


Sonhei contigo toda a noite. Com os teus cabelos dourados ao sol, com o cheiro da tua pele depois do mar e com a tranquilidade que sempre tinhas no teu olhar. Aquela serenidade, que encontro tão poucas vezes. Já não te revisitava há meses. A cisão foi tão forte que me proíbo de pensar em ti. Foste amor forte, potente, viciante, doloroso. Foste luz e sombra.
Mas hoje deixei-me ir.
Cada vez que voltava à realidade, ao meu quarto escuro, ao cansaço do meu corpo, forçava-me a adormecer para voltar a ti. Para te ver, para sentir que existes em mais locais do que na minha memória, nem que seja temporariamente, anualmente nos meus sonhos.
Eu gostava de saber... se nunca mais pensaste em mim, se me conseguiste apagar completamente das tuas recordações. Porque eu não. Revisito as poucas fotografias que tenho tuas e tento reconstruir todos os pormenores do dia em que ficaste para sempre em imagem.
E sabes o que é pior? Eu digo-te
Acordar com aquela sensação agridoce.. a pessoa que está ao meu lado na cama não és tu. A pessoa com a qual reconstruí a minha vida não és tu. Onde estás tu? O que fizeste nos últimos 4 anos? Meu vício, minha destruição, meu pesar no coração.

sábado, 12 de novembro de 2016

Time

Enquanto olhava em frente, as linhas iam perdendo as suas formas e tudo à minha volta se foi transformando em manchas indistintas.
Na minha cabeça o processo era o contrário. Os pensamentos deixaram de ser confusos e tornaram-se palpáveis, transformando-se em memórias.
Naqueles minutos que pareceram horas, senti o cheiro do mar e o calor da areia quente. Ouvi a voz da minha mãe e tenho a certeza que as mãos da minha avó me tocaram no rosto.
Fui seguindo ao sabor daquilo que o meu cérebro foi criando.
Vi-te por entre os lençóis, dormindo descansado com a boca semi- aberta e tranquilidade no rosto.
Vi o casaco bege do meu avô e fui transportada para o largo da igreja enquanto a madeira ardia.
Emocionei-me ao imaginar o cheiro amadeirado da minha casa e o calor do soalho ao lado do aquecedor.
O toque suave do cobertor de lã.
Quis comer as pipocas doces do cinema e sentir a calçada molhada do passeio da minha rua.

Não saí dali. Mas quando voltei ao presente ainda senti a nortada a desalinhar-me o cabelo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

«Do not go gently into that good night/ Rage, rage against the dying of the light.»



Penso em ti mais vezes do que devia. Provavelmente mais vezes do que tu pensas em mim, sem dúvida. 
A submissão ao nosso desejo deixou-me marcas. 
Tento encontrar-te em todos os sítios para onde olho. E não te vejo.
O objectivo seria só perguntar-te se sentes o mesmo que eu, se pensas no mesmo que eu. Se procuras o meu cheiro bem longe, na memória da noite.
Gostava de saber também se aquilo que dissemos, se as verdades que te contei, ficaram de algum modo gravadas em ti.
Diria que não. Mas precisava de ouvir.
Também queria ouvir que afinal valho a pena e que tudo vale. Tudo vale a pena.
Todos os detalhes, todos os defeitos, todos os pormenores, tudo o que sabes, tudo o que tens para aprender, todas as vezes que acertas, todas as vezes que és desajeitado, que não sabes o que dizer.

Queria que respondesses todas as vezes.

Só sim, vamos
Ou não, não quero saber.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

I can't make you love me

Ainda cá estás. Não saíste, nem queres, nem vais, nem eu deixo.
Nem eu deixo.
Nem eu consigo.


No outro dia vi-te numa memória antiga. Não te procurei mas apareceste, sem me preparares.

Não estava preparada. Para ter parado. Estacado em ti, naquilo que foste no dia em que me apaixonei por ti. Naquele dia.

Onde estás?

Ainda móis. Todos os dias me acordas da rotina que estabeleci para te esquecer. A verdade talvez seja que todos os dias te procuro. Mesmo sem querer, procuro-te em tudo aquilo que deixaste para trás.

Porra, tenho tantas saudades tuas.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Riot On An Empty Street

És arrogante, mandona, sobranceira, snobe, convencida.
Tens a mania que sabes mais que os outros.
Não dizes tudo de uma vez.
És fraca, chorona, birrenta.
Guardas rancor e ressentimentos.
Tens uma pancada qualquer que finges desconhecer. Não percebes a intensidade das coisas.
És literal. Pouco sensível.
Zero sentido estético.
És frágil e ingénua.
Deves achar que és a última Coca-Cola do deserto.
Ninguém vai gostar de ti assim.
Criatividade..chapéu!
Tens ataques de histerismo, falas rápido e gaguejas nos "lhes".
És uma ganda wannabe.
Não sabes contra-argumentar.
Tens problemas com figuras autoritárias. Ficas nervosa, choras.
És fria com quem não conheces. Dás-te demasiado a quem conheces.
Vão-te sempre magoar.
Nunca te vais aguentar muito tempo no mesmo sítio.
Rebentas com pouco. Explodes, KABUUUM!
Na generalidade, as pessoas não se sentem à vontade com indivíduos totalmente sinceros.
Tira a máscara.
Põe a máscara.
Tira.
Põe.
Tira.
Põe.
(...)



quinta-feira, 30 de junho de 2011

Amor em 58


"01- X- 58

Seu frivolozinho,

Eram 11:30h já estava entregadíssima a Morfeu quando fui acordada por duas fortes campainhadas que eram o anunciar do teu rádio-telegrama. Claro, o resto da noite continuei a sonhar contigo. Somente havia uma diferença é que em vez de viajares num cargueiro, ias num luxuoso paquete e eras senhor dele.. que formidável, hem?

Hoje, sábado, vou à noite ao Monumental com a família ver o filme A Árvore da Vida. A crítica disse muito bem por isso estou convencidade que não nos vão enfiar "barrete". À tarde vou levar um livro que me emprestaram a casa da sua respectiva dona. Chama-se Madame Bovary de Gustavo Flaubert, este como possivelmente saberás foi o pioneiro do realismo no romance; inspirou Zola, Daudet, Maupassant e outros que eu desconheço. Sinceramente, deste livro não gostei. Achei-o sórdido. Mas gostos não se discutem e há quem goste bastante dele.

Bem, vou-me retirar com um até breve; depois de fazer a entrega do livro, sigo para o correio. Gostava que ainda a recebesses a tempo de me responderes.

Cordialmente me despeço,

Carmen Duarte"



sexta-feira, 15 de abril de 2011

Nothing even matters

Tenho saudades de quando escrevias para mim e me deixavas envelopes lacrados com a cera de uma qualquer vela amarela que encontravas perdida em casa de alguém numa daquelas noite de bebedeira e charros sem fim. Tenho saudades dessa espontaneidade, de me dizeres que era a mulher mais importante da tua vida. Que te tinha dado alento, esperança e alguma coisa pela qual lutar. Eu acreditava. Acreditei em ti até ao último momento.
Tenho saudades da tua escrita à Lobo Antunes, com os parêntesis e as repetições, com interrogações e texto interrompido. Às vezes lembro-me dos teus L's e dos teus R's que tinham forma de menina mas eram inimitáveis.
O teu antigo espírito boémio fantasiava-me e por vezes quis mesmo ser como tu. Live fast die young.
Hoje não sei em que te transformaste. Já nem sequer tenho curiosidade. Olho para trás como alguém que já viveu 60 anos sem ti. És parte dum passado distante. Mas às vezes tenho saudades.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Clair de Lune

"Enquanto somos novos, vivemos habitados pela graça, que é uma espécie de projecção histérica de nós próprios"
Mafalda Ivo Cruz, O rapaz de Botticelli

domingo, 9 de janeiro de 2011

She has no strings, Apollo

Não ouvia a tua voz desde 1998. Ouvi hoje com uma nitidez indescritível no Natal de 1992. Já não me lembrava que soava assim. Não me recordava do timbre, da textura. Sibilavas os ésses. O teu tom era firme mas ternurento. Falavas-me acerca dos pinhões, dos presentes, da árvore de Natal.
Foi estranho. Por momentos senti que estavas aqui, sentado ao meu lado. Quem sabe se não estarias. Penso sempre que nos vigias de onde quer que estejas. Como se fosses um amuleto psicológico.
Hoje era o teu dia. Nunca digo a ninguém que me lembro. Confessá-lo iria fazer com que se formasse um nó gigante na minha garganta, nó de choro e de incompreensão. É difícil.
Quando te ouvi, sussurrei-te um "Feliz Aniversário", acho que ouviste.
Gosto muito de ti

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Deixas Em Mim Tanto De Ti

Hoje olhei para a fotografia do Natal, não sei se era bem do Natal, o que interessa é que estávamos todos. Todos. A avó, o avô, a tia Candidinha, (o tio Álvaro), o tio Zé, a tia Mª Amélia, a tia Cristina e o tio Pedro, a mãe, o pai, a Isabel, a Rita e o primo Chico, os miúdos, a Sofia, toda a gente.
A cada ano vejo a fotografia a encolher, isto é, as pessoas parece que desvanecem, que vão desaparecendo, deixando apenas o resto daquilo que foram. As ligações enfraquecem-se e não há quem faça o esforço necessário para as reatar.
E a sensação da perda é o pior. É saber que não há retorno.
Nunca há ninguém que encare a morte de uma maneira tranquila, sem pesos na consciência. Pensamos sempre que poderíamos ter feito alguma coisa mais. Podíamos ter dito algo mais, podíamos ter tocado mais uma vez, presentear alguém com um sorriso sincero.
Nunca acontece.
No momento em que o caixão desce e é coberto com terra, só nos resta agradecer o que passámos com aquela pessoa. Só nos resta reviver os momentos, como se de uma película cinematográfica se tratasse.
Aprendemos a encarar que, à medida que crescemos, a morte se afigura como algo quase constante. Algo cada vez mais doloroso devido ao tempo dispensado nas relações. Questionamo-nos se a imortalidade vale a pena. Certamente não valerá. Seria impossível aguentar tantas perdas seguidas, seria infrutífero criar laços, amar, dar de nós.
Quando estamos mais fracos é quando aprendemos mais. Uma aprendizagem dolorosa mas sempre fortificante.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Velha Infância

Não faço a mínima ideia do tempo que passou desde a última vez que escrevi.
Ando outra vez imersa na rapidez com que passam os dias e se sucedem as semanas. E assim, a vida passa, mais depressa do que o suposto, sem a aproveitarmos o suficiente para, no dia da nossa morte, podermos morrer com um sorriso estupidamente feliz estampado no rosto.
Sinto-me sempre nostálgica de cada vez que remexo as fotografias que tenho. Por vezes chego a ter vontade de conhecer as pessoas que me acenam, que sorriem comigo, que dizem "cheese", que me beijam, que estão sempre presentes. Parece que tudo aconteceu numa outra vida, lá bem longe onde todas as tardes eram passadas com os problemas ridículos e apetitosos do dia a dia. O meu maior medo é não conseguir recuperar essa felicidade espontânea, é ter a desconfiança como elemento permanente da minha existência.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Lost!

minha querida:
acho que todos os dias penso em ti. desde que fugiste depois de teres largado a bomba, não sei que sentimentos nutro por ti.
tenho sempre imensa vontade de te escrever. mas a tua solidão assusta-me. cada vez que me escreves fazes-me sentir que és a pessoa mais infeliz do mundo. eu sei que o dever de uma amiga é ajudar. mas eu também já precisei de tanta ajuda, numa altura em que todos desapareceram e ninguém ficou, para me ajudar a suportar a dor. achas que também nunca tive noites de insónia? já tive, e nunca foram muitas. as suficientes para saber que não é um fenómeno normal e que não conseguir dormir é uma defesa, mas também um tormento que nos aproxima de tudo o que nos magoa.
houve uma altura em que achava que o "amor incondicional" existia e sabia e jurava com toda a certeza que nada, nada, nada nos afastaria. agora não te asseguro nada. desde agosto que prometi a mim mesma libertar-me de uma série de teias que me mantinham. talvez tenha tecido outras mas até agora ainda não me arrependi.
não sei se alguma vez sentiste a sensação de solidão verdadeira. aquela em que só estás tu e o silêncio e, por vezes, algumas lágrimas, lágrimas de tristeza, de medo e raiva. as lágrimas que nos fazem sentir vivos, aquelas que nos asseguram que o sofrimento existe. eu já senti isso. não sei se a culpa é da tal ínsula que te mantem viciada no teu próprio sofrimento mas a minha ínsula faz-me ser viciada em boa disposição. faz-me ter força para enfrentar um dia após o outro. e faz-me viver e sentir-me viva.
tu foste o meu porto de abrigo, e um porto de abrigo não se destrói de um dia para o outro. abriga-nos, sempre. e quando falha o abrigo, pelo menos não desaparece.
eu não sei, quando estiver contigo não sei o que te vou dizer. nunca foste muito dada às palavras. aquilo que sentes raramente dizes. aliás, eu nunca te conheci. e provavelmente essa foi a maior traição. cada vez que penso nisso imagino uma sucessão de mentiras e chantagens, incontroláveis.
nunca desistas de viver, agarra-te pelo menos à crença que tens que ter em ti própria, valoriza-te, ajuda o mundo. não vivas fechada em ti, num vazio que te deprime a cada dia que passa.
só gostava que tivesses estado aqui, depois, para me pedires desculpa. agora não sei se quero ouvir, não sei se me deva conceder a esse luxo. já nem sei se vale a pena depois de tudo o que batalhei para conseguir deixar ir.
sinceramente não sei se estou melhor assim, há muito tempo que não falo comigo mesma. somente sei que não quero repetir a experiência, não quero ver a cena a decorrer na minha cabeça uma e outra vez.
acho que sou feliz, mas também prefiro não pensar muito nisso.
vê se encontras o teu caminho.
qualquer coisa
hoje e sempre,
s

domingo, 27 de julho de 2008

És e sempre serás

Tive vontade de voltar àquela escola, cor de pele, igual a tantas outras no país. E essa vontade foi despertada por ver no nono ano os meninos que eram tão pequenos quando abandonei essa escola. Tenho saudades de conhecer todos os "cantos à casa". Fazem-me falta todos os bocadinhos aproveitados ao sol com um frio que nos fazia tremer ou com aquele calor que nos deixava cheios de vontade de andarmos à luta com garrafas de água cheias a pressa. Nessa escola sabia sempre onde encontrar a minha turma, os meus amigos que na altura pareciam os mais especiais do mundo e com o tempo se foram afastando lentamente, sem magoarem.
Tenho saudades da partilha de trabalhos de casa, de saberes, de saudades e desabafos, no triângulo, as paredes escritas com declarações de muitos amores e os bancos de madeira desviados e quase desfeitos. A sensação de ter sempre companhia nunca a vou voltar a ter. O saber que conhecia alguém de todas as vezes que me sentia sozinha bastava para me fazer companhia. Os namorados, os amigos, as risadas, as faltas e os furos. Tudo único.
Juro que até ouvi a voz rouca e sempre pronta a ralhar da contínua do corredor dos professores " Oh Francisquinha, não podes passar por aí!", ouvir o Sr. João a falar da guerra colonial ou as restantes funcionárias que partilhavam a sua vida e a comparavam às revistas e telenovelas.
Parecia sempre tudo tão simples. Longas tardes deitados no cimento a sentirmos o agradável quente do sol. As caminhadas intermináveis à volta de toda a escola, as conversas postas em dia. O "beijo ou estalo" no relvado ou as partidas de futebol no campo. Todo o tempo que passávamos juntos tinha significado e serviu para que eu nunca me conseguisse esquecer de todos os pormenores importantes que me faziam sentir em casa.
Senti-me envelhecer quando me apercebi que tal como eu, aqueles meninos que andavam no sexto ano também já chegaram ao final de uma fase e acredito que como eu vão sentir aquela mágoa apertada de cada vez que se lembrarem de uma gargalhada inocente, de uma parede escrita ou do movimento constante da nossa escola.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Waiting on an angel

-Avó quero ouvir uma história antes de dormir!
-Qual? A do burrinho, minha flor?
-Não, avó. Quero saber de si e do avô...hum..quando é que a avó e o avô se conheceram?
-Há muitos muitos anos atrás. A avó e o avô trabalharam juntos durante um Verão. O Verão de 2006. A avó tinha 16 anos e o avô 19. Foi nessa altura que se conheceram.
-E como é que isso aconteceu, avó?
-Lembro-me como se fosse hoje. O avô vinha com aquele ar meio desgrenhado, com pouca vontade de trabalhar. Trazia consigo uma mochila que logo abriu. Retirou de lá uma livro. Eram crónicas, de António Lobo Antunes. Pôs os pés em cima da mesa e começou a ler com o ar mais impertigado do mundo.
-Avó, gostou logo do avô?
-Não, minha querida. O avô parecia um bocadinho convencido e insuportável, mas cedo percebi que talvez fosse uma maneira de seleccionar as pessoas com quem se dava. Ou então uma forma de chamar a atenção. Por trás daquela máscara estava outro avô. A avó apaixonou-se por todas as suas facetas. E tudo aconteceu muito rápido.
-E depois avó? Conte-me mais!
-Ora, minha filha, o amor foi crescendo. A par com ele cresceram também a sinceridade, o à vontade, o desejo, a satisfação, a amizade e a confiança.
-Quer dizer que o avô era o seu melhor amigo?
-Sim, o avô é ainda hoje, das poucas pessoas que merece que a confiança e a sinceridade da avó.
A avó cresceu muito enquanto partilhava a sua vida com ele. Sabes, a vida a dois, com alguém que realmente goste de nós vale muito mais a pena.
-Então, a avó e o avô estiveram sempre juntos, desde que se conheceram?
-Nem sempre meu anjo, mas acho que está na hora de dormires. O resto da história fica para outro dia. Toma um beijo de boa noite, minha flor.
-Boa noite avó.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

terrible angels

Disse-me:
"Ontem chegaste, pequenina, pronta para iniciar uma nova etapa desta corrida.
Lado a lado vivemos momentos inesquecíveis e partilhámos saberes, amizade e alegria. Superaste os objectivos!
Hoje terminas outra etapa. Outras se seguirão, algumas de difícil escalada.
Nunca desistas! Se por acaso alguma vez as forças te faltarem, pára. Pára e olha para trás. Vê o que já conseguiste e vai! Eu cá estarei para te apoiar e te poder sentir plena de orgulho, como de orgulho viverá o meu coração sempre que festejares uma vitória."

palavras sem explicação.
obrigada professora I.
dedicação, empenho e força de vontade.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

tudo o que eu te dou

19 de maio de 1998
19 de maio de 2008

faz dez anos. dez anos que partiste e ainda não voltaste para junto de todos nós.
hoje fui à missa. entrar numa igreja parece-me uma hipocrisia, sei que se cá estivesses não quererias que fosse só por ti.
às vezes sinto pena, de não nos teres visto crescer. era tão importante avô! nunca falamos sobre o que eu queria ser no futuro, sabias que eu adorava brincar contigo, aprender os sinais de trânsito e dar longos passeios pela praia da Falésia. Gostava de te ter dado todas as felicidades que um avô merece: gostava que me visses formada, feliz, a dar tudo de mim. gostava que tivesses estado a meu lado quando apaguei as minhas velas dos 18 anos. gostava que me tivesses levado a ver o teu mundo. podias-me ter falado de ti, podias-me ter ajudado em tudo. e não sinto a tua falta só para me seres útil, que estupidez! sinto falta do meu avô Chico que em inúmeras coisas me auxiliou e me fez crescer.
há dias em que tenho a sensação que também vês o mundo através dos meus olhos e que por isso tiveste ao meu lado sempre, e me apoiaste em todas as minhas decisões. é verdade? por favor, diz-me que sim.
e deve ser por isso que não me consigo cansar de me lembrar de ti. não consigo ultrapassar o luto e pôr de parte tudo aquilo que sentia por ti, imaturo mas verdadeiro, infantil mas sentido, era pequenina, e tinha oito anos, que sabia eu?
lembro-me de ouvir a mãe responder que o avô apenas tinha ido embora, que não voltava mais. eu sabia bem que era verdade, mas era verdade porque tinhas ido para "outro mundo". ninguém conseguiria alguma vez falar contigo. o padre disse hoje que há coisas que só se resolvem com a oração. não sei se ele tem razão ou não, mas sei que quando realmente me lembro de ti e penso que gostaria imenso que tivesses estado em certos momentos da minha vida parece que sinto uma voz dentro da minha cabeça, a tentar chamar-te, talvez seja a oração.
e por mais voltas que dê a cabeça não arranjo explicação lógica para a falta que me fazes. quando ouço o teu nome, quando dou uso ao teu nome, sinto o meu interior a explodir de saudade mas também de orgulho, porque eu tive um avô chamado Francisco, o meu self-made man que sempre fez o melhor para a sua família e nos protegeu de tudo o que nos magoava.
o pai pensa que não, mas eu lembro-me como se fosse hoje. ele disse que não vi o avô em fase terminal, mas vi. lembro-me perfeitamente da clínica em coimbra, fria e azulada, onde tudo era imaculadamente limpo. lembro-me de te ver branquíssimo, a definhar, mas sem admitires. a brindares-me sempre com o mesmo sorriso mas um bocadinho mais forçado, do género "não te preocupes, sou quase velho e estou um pouco doente", lembro-me da lágrima quase ao canto do olho, a esforçares-te por não me afligires com o teu sofrimento. (já to disse mil vezes que o podíamos ter partilhado). recordo-me vezes sem conta de te querer guardar um croquete maravilhoso da vénus e de te ver alimentado a soro, insípido e não compreender como é que conseguias trocar, o sabor maravilhoso do bolinho de carne por aquela espécie de água. a avó a rezar, a mãe a evitar que eu falasse disso, o pai atarefadíssimo pois previa algo que eu não conseguia conceber.
deixaste-me assim, nenhum homem é de ferro e não conseguias aguentar tanto sofrimento (apesar de eu o querer partilhar).
e marcaste-me, para sempre.
hoje, quando estiver sozinha, vou tentar seguir o conselho do padre, chamar-te-ei através da oração.
mereces tanto, meu avô.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

76 anos

Tenho saudades dos vestidos de roda da mesma maneira tenho saudades dos laços enormes que a mãe dava nas fitas de seda. Os vestidos com bordados, comprados pela avo naquela e so naquela loja, os xadreses, as bolinhas e flores. O laço da fita de seda azul, branca, rosa ou amarela. O amor e o gesto. A fita do cabelo a condizer com o laço ou com os sapatos, envernizados com a fivela dourada; rosas amarelos, brancos ou azuis.
A franja direita, um jeito com a escova, pronta. linda, ajeita mais uma vez, perfetia. O alfinete, legado de nascimento, ouro, escrito, o meu pequeno nome; 4 letras apenas. Era tão feio, agora a sua falta faz-me sentir velha. Uma voltinha, UAU, como te fica bem, espectacular. Nao esquecer o chapéu rosa, azul ou amarelo, voltar a compor o cabelo, escovadela na franja, olhos doces de quem se acha princesa, de quem quer ser tudo e nada. De quem quer surpreender e acaba por ser surpeendida. De quem queria ser madrinha de um urso- polar, ou viver feliz na terra de todos os animais, como contava o avô, em paz. maravilhoso. A inconsciencia e inocencia de desconhecer o mundo de sirenes e desgraças. a sorte de nao saber o que é a guerra. De pensar que morrer é ir dar um grande passeio, durante muitos anos. E deixar a caixa de musica a tocar à espera. A melodia. O ritmo sonolento, slow motion. aquela música que antesme acalmava e agora me faz chorar, silenciosamente. Lembram-me bonecas de porcelana, boinas axadrezadas em tons de castanho, bailarinas em pontas dançantes, incessantemente, luvas brancas com um botao branco pequenino, cavalinhos de pau e legos de madeira, beijinhos indespensáveis e arroz de ervilhas ou lulas, narizinhos a espreitar na mesa, passeios no parque e cachorros quentes no pachá, compal de pera, armazem, naftalina e memórias. Vontade de ser criança. Sem Problemas. Chillin'. Tudo.